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INTERVENÇÃO DO REPRESENTANTE DA REPÚBLICA

PARA A REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES NA CERIMÓNIA DE

IMPOSIÇÃO DAS CONDECORAÇÕES ATRIBUÍDAS

POR SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA

 AO DR. HENRIQUE DE AGUIAR OLIVEIRA RODRIGUES

 E AO REVERENDO PADRE MANUEL GARCIA DA SILVEIRA

 POR OCASIÃO DO DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

 

Convento de Belém, Ponta Delgada, 8 de outubro de 2018

 

Começo por agradecer a presença do Senhor Presidente do Governo Regional, que muito nos honra, bem como de todos os ilustres convidados.

É tradição, por ocasião da celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Presidente da República atribuir condecorações a cidadãos e instituições açorianas que se notabilizaram pelas suas atividades públicas e privadas, honrando os Açores e Portugal.

Este ano essa celebração realizou-se nesta cidade de Ponta Delgada e quis o Senhor Presidente da República focar as cerimónias, que tiveram então lugar, no papel das Forças Armadas e no seu contributo para a coesão nacional e para a garantia da expressão democrática da soberania nacional consubstanciada na Constituição da República.

 

Não quis, no entanto, o Senhor Presidente da República, deixar passar a ocasião sem assinalar o seu reconhecimento e o reconhecimento da nação portuguesa pelo notável exemplo de dois dos seus cidadãos, filhos dos Açores, hoje aqui presentes e a quem vou ter a subida honra de impor as insígnias das condecorações que lhes foram atribuídas. Ambos se distinguiram pelo amor à sua terra e às suas gentes. Quer um quer outro, teimosa e consistentemente, têm dedicado as suas vidas e as suas capacidades e energias à defesa dos seus ideais, ao bem do próximo e da sua comunidade e à defesa intransigente dos Açores.

Permitam-me que comece pelo Senhor Doutor Henrique Aguiar Oliveira Rodrigues, que nasceu em Ponta Delgada e que, há pouco mais de um mês, completou 80 anos de idade. Que Deus o conserve entre nós por muitos anos em boa saúde e paz de espírito, que bem merece.

Devo, aliás, dizer que depois de viver nos quatro cantos do planeta e de aqui estar a residir há quase 8 anos, não conheço melhor sítio, mais inspirador e tonificante do que os Açores, para uma reflexão e balanço da nossa caminhada e do nosso papel neste Mundo.

Mas se ao Doutor Aguiar Rodrigues lhe assiste agora todo o direito de assumir uma posição contemplativa e desprendida da realidade, a sua vida ativa foi, em contraste, um modelo de intervenção e de participação que merece a nossa admiração e reconhecimento.

Desde logo no campo profissional, tendo abraçado uma das profissões mais nobres e relevantes no plano social, a medicina, à qual se entregou com empenho e generosidade.

Com empenho, através da atenção e benevolência dedicadas aos seus pacientes e da sua valorização profissional, que é uma forma de assumirmos a obrigação, que todos temos, de nos aplicarmos naquilo que fazemos e de procurar melhorar-nos a nós próprios para melhor servir a sociedade em que vivemos.

Licenciado pela Universidade Clássica de Lisboa – temos os dois a mesma “alma mater” - com especialização em medicina interna e cardiologia, foi diretor do serviço de medicina interna e do serviço de doenças contagiosas no Hospital do Divino Espírito Santo em Ponta Delgada.

 Foram numerosos os artigos científicos que publicou, resultantes da sua experiência clínica. Presidiu à Assembleia Distrital da Ordem dos Médicos de 1978 a 1980. Foi distinguido com os prémios Sociedade Médica dos Hospitais Civis de Lisboa, Dr. António Joaquim de Sousa Júnior e Dr. Agostinho Cardoso.

Como médico, manteve sempre uma consciência social e um papel interventivo quanto aos problemas da sociedade. Foi neste campo Presidente da Comissão Distrital de Assistência do Distrito de Ponta Delgada de 1974 a 1980 e vogal na Junta Regional dos Açores com o pelouro dos assuntos sociais em 1975 e 1976. Podemos dizer que cumpriu sempre de modo exemplar a sua missão de médico, dando uma contribuição valiosíssima para os seus concidadãos.

Manteve sempre, por outro lado, um interesse muito especial pelos assuntos culturais e pela vida cultural ligada à sua terra.

São as preocupações intelectuais que dão densidade e profundidade às nossas vidas, que nos ajudam à compreensão de nós próprios e dos nossos semelhantes e a tirar da história as lições que permitem dar continuidade aos contributos das gerações precedentes com o nosso próprio contributo.

O Dr. Aguiar Rodrigues foi sempre um estudioso, interessado em “vasculhar” nos arquivos, procurando coligir e compreender os repositórios existentes sobre a evolução das instituições e do pensamento dos nossos antepassados e tentando articular as bases culturais em que a nossa sociedade deve assentar o seu futuro.

Interessou-se sobretudo pelos testemunhos que nos foram deixados por estrangeiros que aqui viveram e deixaram observações e comentários sobre a vida local.

Foi o caso de Thomas Hickling e da sua filha Catherine, bem como de Caroline Pomeroy, cujos diários, editados pelo Dr. Aguiar Rodrigues, nos dão retratos interessantíssimos sobre a vida dos açorianos nos séculos XVIII e XIX.

Colaborador assíduo do Correio dos Açores, do Açoriano Oriental, das revistas Saber e Insulana, a sua atividade literária versa sobretudo temas ligados à historiografia açoriana e ao progresso da autonomia dos Açores e sua relação com o desenvolvimento da cidade de Ponta Delgada durante os séculos XIX e XX.

Seria fastidioso estar a enumerar todos os seus trabalhos e obras editadas. Elas revelam a vasta cultura, erudição e espírito investigador do Dr. Aguiar Rodrigues, que continua ainda hoje e desde 2004 a desempenhar o importantíssimo cargo de Presidente da Direção do Instituto Cultural de Ponta Delgada, que detém em si a enorme responsabilidade de manter vivo e ativo o legado da elite intelectual desta Ilha de São Miguel.

Mas foi no plano cívico e político que o Dr. Aguiar Rodrigues imprimiu de forma mais profunda a marca pessoal da sua têmpera, do seu carácter e da sua filosofia de vida, do seu apego à liberdade e à democracia.

Nos tempos difíceis que se seguiram à Revolução do 25 de Abril, que veio abrir novos horizontes à sociedade portuguesa no respeito pelos direitos fundamentais e pela dignidade humana, o Dr. Aguiar Rodrigues desempenhou um papel ativo da maior relevância, para os Açores e Portugal.

A sua intervenção cívica e política levou-o a ser eleito para a Presidência da Assembleia Municipal de Ponta Delgada de 1976 a 1989 e para a Vice-Presidência da então chamada Assembleia Regional dos Açores de 1988 a 1991.

Mas o momento mais crítico desta sua intervenção, que talvez tenha sido o momento mais crítico da sua vida - só ele o poderá dizer - foi o papel que desempenhou em 1975, por escolha dos seus pares, membros da Junta Regional de que fazia parte.  Foi então incumbido de redigir uma declaração de repúdio à deriva totalitária, que na altura se adivinhava, do processo revolucionário em curso.

Do Tarrafal ao Goulag era um caminho para ele e para os açorianos, em nome dos quais se exprimia, intolerável, insuportável e inaceitável.

Foi esta mensagem que o Dr. Aguiar Rodrigues, em termos claros e inequívocos, exprimiu bem alto e firme na declaração escrita pelo seu punho.

Como o podemos esquecer, Dr. Aguiar Rodrigues!

E como podemos deixar de o assinalar e reconhecer.

Orgulho da sua mulher e filhos, aqui presentes e a quem cumprimento respeitosamente, mas também orgulho de todos nós, que amamos a liberdade e desejamos viver numa sociedade livre e responsável.

É com emoção que hoje terei o maior prazer em lhe impor as insígnias da Ordem de Mérito, atribuída a Vossa Excelência pelo Senhor Presidente da República.

 

Igual consideração e respeito são devidos ao Reverendo Padre Manuel Garcia da Silveira, também agraciado pelo Senhor Presidente da República.

Notável figura do clero açoriano, que tantas tradições tem nos cinco séculos da nossa história.

Permitam-me sublinhar o papel extraordinário da Igreja católica na formação da nacionalidade e no desenvolvimento das nossas instituições, na consolidação da nossa identidade, na coesão e solidariedade social, nos valores da nossa sociedade, no papel e nome de Portugal no mundo.

Imaginem, e digo isto com o maior respeito pela liberdade religiosa de cada um, o que seria o país e os Açores sem a Igreja, sem a fé que nos anima e nos congrega e que dá sentido à nossa vida.

Pensemos na plêiade de nomes ilustres, tantos que eles foram, de membros do clero, açorianos que desempenharam na sua terra e por esse mundo fora, em terras por vezes longínquas, como a América e o Extremo Oriente, importantíssimas e relevantíssimas missões.

É nessa plêiade que se inclui o Reverendo Padre Silveira, hoje aqui connosco e que tem dedicado toda a sua vida à Igreja e aos outros, com particular ênfase à ilha de São Jorge e aos Açores.

Respondeu cedo à sua vocação eclesiástica.

Aos 13 anos de idade inicia a sua formação no Seminário de Angra do Heroísmo, complementada por um período passado em Providence, nos Estados Unidos, para onde os seus pais tinham emigrado após a erupção do vulcão dos Capelinhos.

Ali frequentou o Seminário de Nossa Senhora, Our Lady, tendo regressado mais tarde a Angra onde completou o curso de filosofia e teologia.

Em 1967 foi ordenado presbítero na Igreja da Praia do Almoxarife, na Ilha do Faial, local do seu nascimento em 1941.  Curiosamente ambos temos a mesma idade.

Regressou depois aos Estados Unidos como cura na Igreja de São Francisco Xavier em East Providence e na Igreja de Jesus Saviour em New Port, ambas no Estado de Rhode Island.

Foi o contacto com um país como a América, tão diferente da nossa realidade, e com a Diáspora açoriana, que influenciou certamente a sua mentalidade, alargando os seus horizontes e incutindo-lhe um espírito de iniciativa inovadora que lhe permitiu atuar na sua vida futura, realizando uma obra notável e um relevante papel de ponte entre a ilha de São Jorge e a Diáspora açoriana.

Regressou aos Açores em 1969, tendo exercido o múnus sacerdotal no Pico e na Graciosa até se fixar em São Jorge, onde reside há 39 anos e onde foi pároco da Igreja Matriz das Velas durante 31 anos.

No longo percurso da sua vida o Reverendo Padre Silveira sempre se distinguiu em todas as áreas da sua atividade.

 Desde logo como pároco junto dos membros da sua comunidade, por quem espalhou a mensagem de Cristo, através do seu exemplo e da sua dedicação à Igreja e aos seus paroquianos.

Dotado de uma vasta cultura e de uma profunda humanidade, com o dom da palavra e da escrita, com a benevolência do seu carácter, tornou-se, na sua paróquia e na sua ilha de eleição, São Jorge, uma figura respeitada e venerada por todos, como são provas as manifestações da população em ocasiões como as comemorações dos 500 anos da vila das Velas, das suas Bodas de Prata e Bodas de Ouro e do Grande Jubileu do Ano 2000.

Mas não reduziu a sua atividade ao campo pastoral, evangélico e assistencial que lhe incumbia como pároco.

Dedicou as suas energias a atividades culturais promovendo a realização de semanas culturais e dinamizando numerosas iniciativas e uma animação constante no campo do teatro e da música, nomeadamente da música popular e folclórica.

A cultura tem sido sempre para ele a expressão da dignidade de um povo, da sua liberdade e criatividade, um bem comum e testemunho do seu percurso histórico.

A cultura, para ele como para todos nós, eleva o espírito e a qualidade de vida e promove uma convivência sã e uma aproximação entre as pessoas.

Foram particularmente relevantes as iniciativas que tomou para um intercâmbio triangular entre os coros da Matriz das Velas, de São Mateus da Graciosa e da Praia da Vitória na Terceira.

Distinguiu-se ainda quanto à valorização do património.

Conseguiu, com uma tenacidade notável, junto da Diáspora açoriana nos EUA e de outros mecenas, os recursos financeiros necessários para o restauro da Igreja Matriz das Velas.  O telhado, teto, portas e janelas, bancadas, tudo foi renovado.  A Capela do Santíssimo Sacramento foi totalmente restaurada. Foram adquiridas imagens e 3 grandes e notáveis telas de alto valor histórico. Foi restaurado o órgão histórico de tubos e encomendados 16 vitrais lindíssimos que vieram enriquecer a Igreja, bem como 4 lustres de cristal.

Foi um trabalho insano, de vários anos, mas que ficará para as gerações futuras, representando o esforço e sacrifício da atual geração.

Apaixonado pela História e grande defensor do património artístico e cultural de São Jorge, fundou o Museu de Arte Sacra e Etnografia Religiosa das Velas, tendo conseguido constituir um acervo muito significativo de valiosas peças na maior parte dos casos adquiridas por seu intermédio.  Todas elas foram por ele próprio inventariadas, estudadas, identificadas e descritas.

A sua contribuição para a defesa e preservação do património artístico e cultural de São Jorge ficará para a história.

Alguém disse a este respeito, e eu cito: “nenhum guia turístico, nenhuma publicação de índole cultural, doravante poderá omitir o seu nome, nem ignorar a obra desenvolvida por ele”.

Mencione-se ainda que o Padre Silveira fez recentemente a doação à Santa Casa da Misericórdia das Velas do seu espólio literário e vasto acervo artístico.

Muito mais poderia acrescentar às suas qualidades, à sua obra e ao rasto que, através do seu esforço e da sua generosidade, deixará à Matriz das Velas, à Ilha de São Jorge, aos Açores e a Portugal.

É com a maior alegria que terei a honra de lhe impor a alta condecoração que o Senhor Presidente da República tão justamente lhe concedeu.

Permitam-me que finalmente agradeça a presença de todos e exprima o meu próprio reconhecimento e as minhas calorosas e amigas felicitações aos dois agraciados.

 

Muito obrigado.

Pedro Catarino